Na peça ‘Bispo’, João Miguel discute relação entre loucura e arte

Premiado ator, que retoma peça após nove anos, fica em cartaz até 23/4 no Sesc Bom Retiro


 

Quando uma obra pode ser considerada arte? A peça “Bispo”, que o ator João Miguel encena no Sesc Bom Retiro até 23 de abril, propõe uma reflexão sobre o assunto a partir da fascinante história de Arthur Bispo do Rosário, sergipano que ficou durante décadas internado em hospícios e acabou se tornando um dos principais artistas plásticos do Brasil.

“Mesmo em condições completamente desfavoráveis, condenado como esquizofrênico paranoide, esse homem construiu a obra dele defendendo o próprio delírio, escrevendo, desfiando as colchas do hospício, rebordando e dando significados a materiais que já eram lixo“, conta João, que atua, dirige e assina o texto ao lado de Edgard Navarro.

Foi essa percepção de que para Bispo do Rosário a criação artística era uma necessidade genuína para dar sentido à própria existência que instigou o ator a mergulhar nesse universo. “No processo de criação, não olhei esse artista como um louco, simplesmente, mas sim como um sobrevivente, um homem que precisou da arte para concretizar a sua tarefa, o seu trabalho, a sua missão.”

João Miguel em cena de "Bispo"(Ricardo Prado/Divulgação)
João Miguel em cena de “Bispo” (Ricardo Prado/Divulgação)

NOVE ANOS DEPOIS

João Miguel, premiado no cinema e no teatro com obras como “Estômago” e “Só”, respectivamente, já estava havia nove anos sem encenar “Bispo”. Sua pesquisa sobre a vida e a obra do personagem, no entanto, começou muito antes, em 1996, quatro anos e meio antes da estreia nacional da peça (2001).

Ele diz que desde a primeira montagem o espetáculo discute temas como a loucura, a lucidez, a arte, a espiritualidade, as vocações e as injustiças sociais, e que esses questionamentos continuam pertinentes mesmo 15 anos depois.

O ator chega mais perto do público durante o espetáculo (Marcelo Granda/Divulgação)
O ator chega mais perto do público durante o espetáculo (Marcelo Granda/Divulgação)

“Tem sido uma grande aventura colocar na roda aspectos de cidadania, de dignidade, dessa loucura esquizofrênica do mundo social, institucional e corporativo que acontece cada vez mais no país”, fala o artista baiano, que sente hoje em dia uma relação mais estreita com a plateia. “Esse é o meu olhar, mas o que o ator faz não é exatamente o que o espectador vê.”

Com mais de 40 trabalhos no currículo, João Miguel ainda em 2017 vai filmar dois longas, um no Ceará e outro no Rio de Janeiro, e concluir a segunda temporada de “3%”, primeira série brasileira feita pela Netflix. Isso tudo enquanto excursiona com “Bispo” pelo Brasil. Uma loucura.


BISPO

Onde: Sesc Bom Retiro (Alameda Nothmann, 185, Bom Retiro, São Paulo)
Quando: sextas (21h), sábados (21h) e domingos (18h), até 23/4
Quanto: R$ 9 (com carteirinha do Sesc) a R$ 30 (inteira), nas bilheterias ou pelo sescsp.org.br
Duração: 60 minutos
Classificação: 12 anos

+ sessão extra nesta quinta (13), às 21h, e na sexta (21), às 18h

 Peça sobre Bispo do Rosário fica em cartaz até 23/4 (Ricardo Prado/Divulgação)
Peça sobre Bispo do Rosário fica em cartaz até 23/4 (Ricardo Prado/Divulgação)