
O emblemático disco “Olho de Peixe” (1993) será interpretado ao vivo pelo cantor e compositor Lenine e pelo percussionista Marcos Suzano neste domingo (12), na Marina da Glória, no Rio de Janeiro, dentro da programação do Festival Clássicos do Brasil.
A ideia do evento é exatamente a de revisitar obras que marcaram gerações, com a apresentação de álbuns brasileiros históricos.
Considerado um marco na música nacional, “Olho de Peixe” traz uma percussão inovadora de Suzano, que transformou o instrumento em uma bateria completa e possibilitou que qualquer ritmo fosse tocado nele. Lenine, por sua vez, adaptou a sonoridade das cordas explorando harmonias e ritmos complexos em cada uma das 11 canções que compõem o trabalho.
A dupla arquitetou, junto com o produtor Denilson Campos, os arranjos em várias sonoridades diferentes, que preencheram e transformaram o trabalho de voz, violão e percussão em uma referência para os ouvintes.
“O Olho de Peixe foi importantíssimo pra gente”, diz Suzano, em entrevista ao Culturice. “Foi uma concepção arrojada pra época.”
Leia a entrevista completa logo abaixo.

Entrevista Marcos Suzano
Culturice – “Olho de Peixe” foi um marco na carreira de vocês dois, e agora, com o novo show, muita gente vai ter a oportunidade de ouvir as canções pela primeira vez. Como você descreveria o disco para parte dessa nova plateia que não conhece o álbum?
Marcos Suzano – Sim, o “Olho de Peixe” foi importantíssimo pra gente. Pra mim, porque pude mostrar as ideias que tinha na época, que iam meio que numa direção diferente da praticada pelos percussionistas e produtores musicais daquele momento. O pandeiro fazendo coisas fora do padrão “pandeirístico”, tipo quase uma bateria. E o violão do Lenine, muito mais percussivo, ritmicamente muito insinuante. Isso foi entrando no gosto das pessoas.
É interessante que fazendo o Olho de Peixe hoje, 30 anos depois, os filhos daquela turma que ia assistir à gente têm comparecido. Cantam as músicas. Choram e tudo o mais. É bem emocionante. Certamente porque os pais ouviam esse disco durante a infância e adolescência dos filhos.
Posso dizer que esse disco marca uma forma bem legal de apresentar um duo de percussão e violão, que não é de forma alguma intimista, e, sim, bem forte. Claro que sem a presença do Denilson Campos, engenheiro de gravação e que fez o som dos nossos shows, não conseguiríamos passar essa ideia. Foi uma concepção arrojada pra época.
E pelo lado das canções, são músicas que têm uma base bem raiz brasileira, mas que, pela sonoridade e pela ideia da mixagem que coloca os sons bem mais presentes, flerta com o que se chama de world music.
Culturice – Como e quando você conheceu o Lenine e quais as peculiaridades dessa parceria, que uniu a musicalidade dos dois?
Marcos Suzano – Conheci o Lenine quando fazia parte de um grupo, que foi dos meus primeiros grupos, o Escola sem Bola. A gente tocava uma música desse cara, o Lenine, um pernambucano que tinha chegado no Rio recentemente e fazia umas músicas cheias de suingue e uns compassos ímpares.
Depois, no Aquarela Carioca, meu outro grupo em atividade até hoje, houve o encontro mesmo com ele, na gravação do nosso segundo disco. O Paulo Muylaert, guitarrista do Aquarela, tocava com o Lenine quando ele gravou o disco “Baque Solto”, com o Lula Queiroga, e me apresentou ele.
Um tempo depois acabamos levando um som na minha casa e ficou aquela sensação de que tínhamos uma coisa bem legal e nova que poderia ser apresentada pro público. Como o Denilson Campos trabalhava com o Aquarela, eu falei com ele que tinha levado esse som e só faltou o estúdio. Ele disse que tinha muitas horas extras no estúdio Chorus, no Rio, no Cosme Velho, e a gente podia usar. Aí começamos a gravar o “Olho de Peixe”.
Depois, numa ida pra Nashville gravar com a Joan Baez, eu conheci o engenheiro de som que acabou mixando o “Olho de Peixe”, o Jim Ball.
Acho que o interessante e peculiar no “Olho de Peixe” é a coisa do violão rítmico e a percussão forte e com timbres diferentes dos utilizados na época. O pandeiro como destaque. Moringas, pandeirões do norte da África, tantan, surdos… uma timbragem que vestiu bem o violão.
Culturice – Como você observa a evolução da percussão no Brasil, comparando a época do lançamento de “Olho de Peixe”, em 1993, com o momento atual?
Marcos Suzano – Sinto que tenho uma responsabilidade grande por uma mudança na direção das coisas. Mas tenho meus ídolos, e o Nana Vasconcelos é um deles. E os discos do Nana com o Egberto Gismonti sempre me mostraram caminhos novos e me deram coragem pra também desbravar essa área.
O bacana é que veio uma turma de percussionistas fabulosos que levaram essas ideias além e, hoje, fico muito feliz em ver muita coisa que eu sugeri sendo feita maravilhosamente bem por gente do mundo inteiro.
Por exemplo, pandeiro, hoje, é um instrumento universal. Tem excelentes pandeiros japoneses, argentinos, alemães, italianos, americanos…
Eu fico prosa. É assim como o cajon, que foi entrando na música do mundo. A conga também.
E também é muito interessante a coisa da época em que o disco foi feito… por exemplo, o Felipe Roseno, que toca comigo no Ney [Matogrosso], é um craque, músico genial. Ele tinha 16 anos quando viu o “Olho de Peixe” no Espaço Picollo, na Vila Madalena, numa temporada incrível. Ele ficou marcado pelo show. Hoje, eu toco com ele e simplesmente adoro dividir o palco com ele no ritmo.
Muitos outros acabaram acreditando que têm voz e podem ter seu destaque no cenário musical. Isso é, pra percussão, muito importante, porque saiu daquela posição de somente acompanhar, fazer um “ritmozinho” ali, leve, pra uma função muito maior. Os técnicos de som hoje já entendem a posição e o som de um pandeiro grave. Isso é muito lindo.
Hoje em dia, a percussão alimenta a música do mundo com inovações, criatividade, ritmos, sonoridades. E também é uma fonte sonora sem fim pros manipuladores de samplers e que usam recursos eletrônicos na música. Eu sou um desses também. Eu mesmo me “sampleio” e uso meus sons processados. É muito bom isso.